Walt Disney que ainda estava tentando descobrir qual seria o lugar de seu pequeno estúdio na indústria cinematográfica.
Oswald não é apenas um personagem anterior a Mickey. Sua história ajuda a explicar uma das decisões mais importantes da carreira de Walt Disney: a determinação de nunca mais perder o controle sobre uma criação sua.
A trajetória do coelho começa em 1927, quando Walt e sua equipe deixaram para trás o formato das Alice Comedies e passaram a trabalhar em uma série inteiramente animada. O resultado foi um personagem que rapidamente conquistou o público e se tornou a primeira grande estrela de animação criada por Walt.
Mas Oswald pertencia a outra empresa.
Essa contradição acabaria mudando o curso da história da animação. Quando Walt descobriu que não detinha os direitos do personagem que havia criado, perdeu Oswald para a Universal e voltou para Hollywood diante de uma das maiores decepções de sua carreira.
Pouco depois, porém, surgiria Mickey Mouse.
Décadas mais tarde, em uma negociação improvável envolvendo um dos maiores narradores esportivos dos Estados Unidos, a Disney conseguiria recuperar aquilo que havia perdido em 1928.
A história de Oswald é, portanto, também a história de como a Disney aprendeu uma das lições mais importantes de sua própria existência: criar um personagem é apenas o começo; garantir que ele continue pertencendo ao seu criador pode ser igualmente decisivo.

Antes de Mickey, Walt estava procurando seu próximo grande personagem
Quando Walt Disney chegou à Califórnia em 1923, acompanhado pelo irmão Roy, ainda estava longe de imaginar a dimensão que sua empresa alcançaria.
O estúdio começou produzindo as Alice Comedies, série que combinava animação com uma protagonista humana inserida em um mundo de desenhos. O projeto ajudou Walt a estabelecer seu nome em Hollywood, mas ele logo percebeu que queria avançar em outra direção.
Em 1927, decidiu abandonar a combinação entre live-action e animação e criar uma série totalmente animada.
Para protagonizá-la, nasceu Oswald.
A primeira aparição do personagem aconteceu em Trolley Troubles, lançado em 5 de setembro de 1927. Ao longo de aproximadamente um ano, Walt Disney e sua equipe produziram 26 curtas de Oswald, distribuídos pela Universal.
Para um estúdio ainda jovem, o sucesso foi importante.
Oswald tinha algo que começava a se tornar essencial para os personagens de animação daquele período: personalidade. Ele não era apenas uma figura que aparecia na tela para participar de uma gag. Era travesso, carismático, expressivo e capaz de conduzir as próprias histórias.
Rebecca Cline, diretora do Walt Disney Archives, destacou justamente esse aspecto ao explicar que Oswald foi a primeira grande estrela de desenhos animados de Walt Disney. O personagem permitiu que Walt desenvolvesse um protagonista com características próprias e uma personalidade capaz de criar conexão com o público.
Existe ainda uma curiosidade que ajuda a dimensionar a importância comercial do coelho: Oswald foi o primeiro personagem da Disney a gerar produtos licenciados, incluindo uma barra de chocolate, um conjunto de estênceis e um broche.
Em outras palavras, antes de Mickey existir como fenômeno mundial, Oswald já começava a mostrar que personagens de animação poderiam ultrapassar a tela.
A Universal viu potencial no coelho
Oswald foi criado por Walt Disney para uma série produzida para Charles Mintz, que tinha um acordo de distribuição com a Universal. Os curtas eram distribuídos pela companhia e encontraram boa recepção junto ao público.
O jovem estúdio de Walt, por sua vez, começava a ganhar experiência e reconhecimento.
Mas havia um problema escondido no contrato.
E ele só se tornaria evidente quando Walt viajou para Nova York em 1928 para tentar negociar a renovação do acordo.
Ao revisar os termos, Walt descobriu que não era o proprietário de Oswald. Os direitos pertenciam à Universal.
A situação era ainda pior do que simplesmente perder um personagem.
Segundo a história preservada pelo Walt Disney Archives, o distribuidor também havia contratado vários dos animadores de Walt, com a intenção de continuar produzindo os desenhos de Oswald sem ele. Quando percebeu o que estava acontecendo, Walt entendeu que havia perdido não apenas o personagem, mas uma parte importante do negócio que havia ajudado a construir.
Foi uma lição dolorosa para um empresário que ainda estava no começo da carreira.
E foi uma lição que Walt jamais esqueceria.
A partir daquele momento, a propriedade intelectual se tornaria uma questão central para sua empresa. O personagem que viesse depois de Oswald precisaria pertencer a Walt.
Esse personagem seria Mickey Mouse.
A perda de Oswald abriu caminho para Mickey Mouse
A história de que a perda de Oswald levou diretamente à criação de Mickey Mouse tornou-se uma das narrativas mais conhecidas da história da Disney — e existe um fundo histórico muito concreto por trás dela.
Depois de perder o controle sobre Oswald, Walt precisava criar um novo personagem.
Ele e o animador Ub Iwerks desenvolveram então um pequeno rato que inicialmente recebeu o nome de Mortimer antes de ganhar o nome Mickey Mouse por sugestão de Lillian Disney.
Os primeiros curtas de Mickey foram Plane Crazy e The Gallopin’ Gaucho. Mas nenhum deles foi lançado imediatamente.
A indústria cinematográfica estava passando por uma transformação radical: o cinema sonoro havia chegado.
Walt percebeu que precisava fazer algo diferente.
O terceiro curta de Mickey, Steamboat Willie, incorporou som sincronizado e foi lançado em 18 de novembro de 1928 no Colony Theatre, em Nova York. O personagem rapidamente se tornou uma sensação.
Assim, a sequência dos acontecimentos é particularmente simbólica.
Walt perdeu Oswald.
Aprendeu que não poderia depender apenas de um distribuidor para controlar suas criações.
Criou Mickey.
E transformou aquele novo personagem no centro de uma empresa que, décadas depois, seria uma das maiores companhias de entretenimento do mundo.
Não é exagero dizer que Oswald faz parte da origem de Mickey — mesmo que não exista uma relação de continuidade entre os dois personagens. A experiência com o coelho mudou a maneira como Walt enxergava a propriedade de seus personagens e sua própria empresa.
Oswald continuou existindo sem Walt
A perda não significou o desaparecimento de Oswald.
A Universal continuou utilizando o personagem, e o coelho passou posteriormente para as mãos do animador Walter Lantz, responsável por uma nova fase de sua trajetória.
Enquanto Mickey se transformava em um fenômeno global, Oswald permaneceu associado à história inicial da animação, mas distante da companhia que havia criado seus primeiros desenhos.
É justamente essa diferença que torna sua história tão peculiar.
Durante décadas, os dois personagens seguiram caminhos separados.
Mickey tornou-se o símbolo máximo da Disney.
Oswald tornou-se uma espécie de personagem perdido dentro da própria história da Disney.
E por muito tempo parecia improvável que isso mudasse.
O retorno que levou quase oito décadas
A reviravolta aconteceu em 2006.
Robert A. Iger havia acabado de assumir como CEO da The Walt Disney Company e tinha uma ideia bastante específica em relação ao legado da empresa: recuperar Oswald.
Em 9 de fevereiro daquele ano, a Disney anunciou oficialmente que havia chegado a um acordo com a NBCUniversal para trazer o personagem de volta.
A negociação ficou famosa por um motivo quase cinematográfico.
O acordo envolveu o narrador esportivo Al Michaels.
Michaels trabalhava na ABC, empresa pertencente à Disney, mas tinha interesse em seguir para a NBC. A negociação permitiu que ele fosse contratado pela NBC em troca dos direitos relacionados a Oswald, dentro de um acordo muito mais amplo entre as companhias.
Na prática, um dos personagens mais antigos da Disney voltou para casa em uma negociação que envolveu direitos esportivos e um dos principais nomes da televisão americana.
Iger sabia exatamente o significado simbólico da operação.
Ao anunciar o retorno, classificou Oswald como um precursor de Mickey e uma parte importante do legado criativo de Walt Disney.
A própria Diane Disney Miller, filha de Walt Disney, comemorou a volta do personagem à família.
Para a Disney, não se tratava simplesmente de recuperar uma propriedade antiga.
Era uma forma de fechar um capítulo que permanecera aberto desde 1928.
Por que Oswald era tão importante para Walt?
É fácil olhar para Oswald hoje e enxergá-lo como uma curiosidade histórica — o personagem que existia antes de Mickey.
Mas isso diminui sua importância.
Oswald foi uma das primeiras demonstrações de que Walt Disney poderia criar personagens capazes de sustentar uma série de animações e conquistar uma audiência própria.
Ele também representou um momento crucial na evolução artística do estúdio.
Os curtas de Oswald ajudaram Walt e seus animadores a experimentar ritmo, personalidade, expressão corporal e o tipo de humor visual que posteriormente se tornaria uma das marcas da animação Disney.
O personagem também surgiu em um momento em que a animação ainda estava construindo sua própria linguagem.
Oswald pertence à era do chamado estilo rubber hose, caracterizado por braços e pernas extremamente flexíveis, movimentos exagerados e uma fisicalidade que aproveitava as possibilidades do desenho animado de maneira muito diferente da animação moderna.
É exatamente esse estilo que a Disney recuperou décadas depois.
Disney100 colocou Oswald novamente no centro da história
Quando a Disney celebrou seu centenário em 2023, a companhia teve uma oportunidade particularmente interessante: olhar para personagens que ajudaram a construir sua história antes que Mickey se tornasse seu principal símbolo.
Oswald recebeu uma homenagem que tinha um peso especial.
A Walt Disney Animation Studios produziu um novo curta de aproximadamente um minuto chamado Oswald the Lucky Rabbit, marcando o retorno do personagem ao estúdio em uma nova produção de animação após mais de nove décadas.
O curta foi dirigido pelo animador Eric Goldberg e produzido por Dorothy McKim, com uma equipe de animação desenhada à mão que buscou reproduzir deliberadamente o estilo dos primeiros filmes do personagem.
A ideia não era modernizar Oswald até torná-lo irreconhecível.
Era justamente o contrário.
O curta recuperou elementos do estilo visual da década de 1920, incluindo a animação de movimentos elásticos conhecida como rubber hose, como uma homenagem aos primeiros artistas que trabalharam com Walt.
Há algo particularmente bonito nessa escolha.
Oswald voltou à tela praticamente da mesma maneira que começou: como um personagem de animação desenhado à mão, cheio de energia e humor visual.
Só que, desta vez, ele voltou para o estúdio que pertence ao seu criador.

O coelho também ganhou espaço nos parques e nos games
O retorno de Oswald não ficou limitado aos arquivos históricos.
Depois de 2006, o personagem começou gradualmente a recuperar espaço dentro do universo Disney.
Ele apareceu em videogames, produtos licenciados e experiências nos parques.
Um dos projetos mais importantes para sua popularização entre uma nova geração foi Disney Epic Mickey, franquia de videogames que colocou Oswald em uma posição central ao lado de Mickey.
A escolha fazia sentido narrativamente: o personagem perdido retornava justamente para dividir uma aventura com aquele que havia se tornado seu sucessor histórico.
Oswald também ganhou presença nos parques Disney. Sua popularidade foi especialmente forte no Japão, onde apareceu em produtos e experiências antes de chegar a outros destinos. Em 2014, por exemplo, passou a receber visitantes no Disney California Adventure.
É um detalhe importante para entender a trajetória moderna do personagem: Oswald não voltou simplesmente como uma peça de museu.
A Disney começou a tratá-lo novamente como um personagem vivo.
O que a história de Oswald ensina sobre a Disney
Existe uma razão para a história de Oswald continuar sendo contada dentro da própria Disney quase um século depois.
Ela resume, em poucos anos, algumas das características que definiram a trajetória da empresa.
Primeiro, a capacidade de Walt Disney de transformar uma dificuldade em uma oportunidade.
A perda de Oswald foi devastadora. Mas, em vez de abandonar a animação, Walt criou outro personagem e passou a construir seu negócio sobre uma filosofia diferente.
Segundo, a importância da propriedade intelectual.
Mickey Mouse não foi apenas um novo personagem. Ele foi parte de uma mudança na maneira como Walt enxergava suas criações. A experiência de 1928 fez com que a propriedade dos personagens se tornasse uma preocupação fundamental.
E, terceiro, a importância da memória.
Quando Bob Iger decidiu recuperar Oswald em 2006, quase 80 anos haviam se passado desde que Walt perdera o controle sobre o personagem. Para a maioria das empresas, recuperar uma criação tão antiga poderia parecer uma operação meramente simbólica.
Para a Disney, o passado possui valor estratégico.
Personagens antigos podem voltar a ganhar relevância quando uma nova geração descobre suas histórias. Foi exatamente o que aconteceu com Oswald.
O coelho que voltou para casa
A frase de Walt Disney sobre Mickey — a famosa lembrança de que tudo começou com um rato — tornou-se uma das citações mais reconhecidas da história da companhia.
Mas existe uma história anterior escondida nessa frase.
Antes do rato, havia um coelho.
Oswald foi uma das primeiras grandes apostas de Walt Disney, ajudou seu estúdio a crescer, conquistou o público, gerou produtos e mostrou que aquele jovem animador era capaz de criar personagens com personalidade própria.
Depois, ele foi perdido.
E essa perda contribuiu para o nascimento de Mickey Mouse e para uma mudança fundamental na maneira como Walt conduziria sua empresa.
Quase oito décadas depois, o personagem finalmente retornou à companhia que o criou.
Hoje, Oswald ocupa um lugar curioso e precioso no universo Disney. Ele não é Mickey, e nunca precisou ser. Sua importância está justamente em representar o capítulo que veio antes — a primeira grande estrela de Walt, a criação que ele perdeu e a lembrança de uma das maiores lições de sua carreira.
Quando Oswald voltou para a Disney em 2006, Bob Iger afirmou que o coelho havia retornado ao lugar ao qual pertencia: a casa de seu criador.
E talvez essa seja a melhor maneira de entender sua história.
Oswald não voltou para competir com Mickey.
Voltou para completar a história de Mickey.
Porque, quando se olha para a trajetória da Disney com atenção, a história realmente não começou apenas com um rato.
Antes dele, havia um coelho sortudo.
O legado de Oswald continua
Quase um século depois de sua estreia, Oswald permanece como uma das figuras mais fascinantes da história da animação. Seu retorno à Disney permitiu que o personagem deixasse de ser apenas uma lembrança dos primeiros anos de Walt e voltasse a fazer parte do presente da companhia.
Dos arquivos aos videogames, do merchandising aos parques e de um novo curta de animação às celebrações do legado de Walt Disney, Oswald encontrou diferentes maneiras de continuar existindo.
E há uma ironia bonita nessa trajetória: o personagem que uma vez representou uma das maiores perdas de Walt acabou se tornando, décadas depois, uma das maiores oportunidades de a Disney reencontrar uma parte esquecida de sua própria identidade.
No fim, talvez o verdadeiro significado de “sortudo” no nome de Oswald não esteja em sua vida fácil — porque ela definitivamente não foi.
Está no fato de que, depois de quase desaparecer da história de seu próprio criador, ele finalmente encontrou o caminho de volta para casa.
